‘Não quero sair do país, quero morar em outro Brasil’, diz bilionário dono da Natura e ex-candidato a vice em 2010

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Direito de imagemCYNTHIA VANZELLA/BRAZIL FORUM U.K. Image caption"Quando vi meu nome nas primeiras páginas dos jornais, com minha reputação ameaçada por inverdades, fiquei profundamente incomodado", disse Guilherme Leal

Dono da gigante de cosméticos Natura, o bilionário brasileiro Guilherme Peirão Leal já tinha o nome sacramentado no rol dos empresários mais bem sucedidos do país, quando, em 2010, decidiu lançar-se candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva – da qual foi um dos principais patrocinadores, chegando a investir milhões de recursos do próprio bolso.

Em entrevista à BBC Brasil, Leal diz não se arrepender da incursão política (“Foi uma experiência positiva”), mas deixa transparecer desconforto quanto a revezes da empreitada.

O maior deles aconteceu no ano passado. Ele foi acusado por Léo Pinheiro, dono da empreiteira OAS, de ter pedido contribuição para a campanha de Marina Silva em 2010 via caixa-dois (recursos não contabilizados).

Leal nega veementemente as acusações e afirma ter ficado “profundamente incomodado” com a situação.

“Quando vi meu nome nas primeiras páginas dos jornais, com minha reputação ameaçada por inverdades, fiquei profundamente incomodado”, disse. “A política não é um campo fácil de se navegar”, opina.

O bilionário dono da Natura diz que não vai mais se candidatar a cargos políticos, porém afirma continuar engajado para mudanças no país.

“Continuo muito envolvido com as transformações aqui. Não quero morar em outro lugar, quero morar em outro Brasil. Obviamente, vivemos um momento muito delicado politicamente. Reconheço as dificuldades, mas não vou desistir do Brasil.”

Confira abaixo os principais trechos da entrevista, realizada durante o primeiro dia do Brazil Forum UK 2017, evento organizado por estudantes e acadêmicos brasileiros no Reino Unido neste sábado.

BBC Brasil: O Sr. diz que deixou a política por “falta de vocação”. Quando o Sr. se deu conta disso? Depois das eleições de 2010?

Guilherme Leal: Sim. Percebi que minha contribuição para a mudança do país, com a qual continuo comprometido, pode se dar de melhor maneira fora da política, buscando a conciliação, o desenvolvimento de novas lideranças políticas, um aprofundamento da mudança cultural das empresas, e da própria gestão do terceiro setor. Não me sinto à vontade nos palanques. Foi uma decisão pessoal.

BBC Brasil: Essa decisão pessoal foi influenciada por uma desilusão com a política?

Leal: Não fiquei desiludido. Mas saí absolutamente convencido de que sem política não se muda o país.

BBC Brasil: Como o Sr. avalia a experiência?

Leal: A política não é um campo fácil de se navegar. Obviamente, sabemos e estamos vivendo nos últimos anos no Brasil a complexidade do nosso sistema político. Considero a experiência muito positiva no sentido de entender melhor o que é esse sistema. Foi um aprendizado importante, pois me deu mecanismos para pensar no desenvolvimento do país. Quero ajudar a transformar o Brasil.

Guilherme Leal e Marina SilvaDireito de imagemAGÊNCIA BRASIL
Image captionGuilherme Leal foi candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva

BBC Brasil: Por que o Sr. decidiu se envolver com a política? O que motivou sua candidatura?

Leal: Estávamos discutindo uma nova agenda. É claro que tivemos avanços muito importantes, como a estabilidade constitucional e monetária. Mas tínhamos um grande desafio sobre qual país queríamos ser. Percebi naquele momento que essa discussão não vinha sendo feita pela “velha política”. Não se discutia o que queríamos ser. Então, naquele momento, queria passar duas mensagens básicas.

Em primeiro lugar, queria ajudar a trazer para o centro da discussão do país o que Brasil queria ser para frente, festejando, celebrando e buscando preservar os avanços passados, mas definindo sua visão de futuro, o que não estava presente. E, em segundo, mostrar de alguma forma, que a política é uma questão de todos nós. Sem a política, o que sobra? A barbárie, a violência e o privilégio dos mais fortes. Foi uma maneira simbólica de dizer que todos deveríamos nos envolver de alguma forma.

BBC Brasil: O Sr. se sente menos esperançoso com o futuro do Brasil hoje do que quando se candidatou?

Leal: Não. Continuo muito envolvido com as transformações do Brasil. Continuo atuando de diversas formas, seja empresarialmente, seja no terceiro setor. Não quero morar em outro lugar, quero morar em outro Brasil. Para mim, essa frase é perfeita. Define com perfeição meu sentimento. Obviamente, vivemos um momento muito delicado politicamente. Reconheço as dificuldades, mas não abro mão do Brasil. Não vou desistir do Brasil.

BBC Brasil: O Sr. diz não ter se desiludido com a política. Não ficou nenhum arrependimento?

Leal: Sim. Me arrependo de ter falado com Léo Pinheiro (dono da empreiteira OAS) da maneira mais ortodoxa possível (Leal foi acusado por Pinheiro de ter pedido contribuições via caixa-dois para a campanha de Marina Silva em 2010). Não teria o menor sentido colocar recursos como coloquei, pessoais, numa campanha, e me expor a um risco de adotar as práticas que queria abolir. Isso é inconsequente, não tem lógica.

Deveria ter evitado esse contato. Pinheiro me foi apresentado por um companheiro de partido, que intermediou nosso encontro. Minha reputação é o capital que construí ao longo da vida. O capital econômico é bobagem. Quando vi meu nome nas primeiras páginas dos jornais, com minha reputação ameaçada por inverdades, fiquei profundamente incomodado.

BBC Brasil: O Sr. consideraria se candidatar novamente em uma eventual chapa de Marina Silva no ano que vem?

Leal: Não. Em hipótese alguma. Já até falei isso com ela.

BBC Brasil: O Sr. é dono de uma fortuna bilionária. Qual é a sua motivação para continuar a trabalhar?

Leal: Acho que a gente busca sentido para a vida. Quero ajudar a construir uma realidade mais justa. Não dá para dormir tranquilo com tantos problemas no Brasil. Sozinho, não vou resolver nada. Mas meu sono é mais tranquilo sabendo que estou tentando fazer a minha parte.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/