‘Meus 15 Anos’, de Larissa Manoela, inspira garotas vizinhas da cracolândia

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Foto Adriano Vizone/Folhapress

Nathalia Firmino dos Santos fez 15 anos em 24 de dezembro do ano passado. Festejou a data com um bolinho caseiro no barraco que divide com a mãe e dois dos três irmãos na favela do Moinho, no centro de São Paulo.

Também moradora da comunidade, Emmelyn Caroline dos Santos não tem nenhuma memória especial do 15º aniversário em 17 de agosto do ano passado. “Passei o dia inteirinho trancada dentro de casa. Sou antissocial. Foi uma data normal.”

As duas tiveram uma festa de debutante tardia, nesta quarta-feira (14), uma trégua na dura realidade de meninas que vivem nos arredores da cracolândia.

Elas e outras nove adolescentes do projeto Novos Sonhos, que atende 500 crianças da região da Luz, debutaram em grande estilo, de carona no lançamento do filme “Meus 15 anos”, estrelado por Larissa Manoela, que fez sucesso em “Carrossel”.

Na segunda-feira (12), as debutantes assistiram à uma sessão especial do longa, que entra em cartaz nesta quinta (15). Em seguida, tiveram um encontro de 15 minutos com a atriz, que é fenômeno teen com mais de 10 milhões de seguidores nas redes sociais.

“Eu vivi duas vezes a emoção de ter um 15 anos de sonho. Primeiro, com uma festança no ano passado e agora durante as filmagens”, disse a atriz para as 11 garotas que fizeram fila para autógrafos e selfies no lobby de um hotel, logo após o grupo acompanhar as agruras e as alegrias de sua personagem no longa.

SUPERPRODUÇÃO

Na ficção, Bia é uma garota solitária e sem vaidade que ganha uma festa de debutante com ares de superprodução, ao participar de sorteio promovido por um shopping.

Na vida real, Larissa Manoela protagonizou um conto de fadas ao debutar em 29 de janeiro de 2016, com direito a carruagem para transportar convidados até a entrada do bufê luxuoso na zona sul de São Paulo, três trocas de roupa e convites com sapatinho de cristal.

Um mundo cor de rosa bem distante do das fãs/debutantes que estudam em escola pública e driblam cotidianamente a ameaça do crack.

“Minha filha ficou muito triste no dia dos 15 anos. A gente não tinha dinheiro para festa nem presente”, relata Maria de Fátima, 50, mãe de Nathalia.

Há quatro anos, a passadeira sofre com uma artrose que a impede de trabalhar. Dificuldades que fizeram a família trocar o bairro da Casa Verde pela favela dominada pelo crack.

“O ruim de morar no Moinho é o sufoco das drogas. Vi minha irmã mais velha sair de casa e ir para esse lado do crack”, lamenta Nathalia. Estudante do segundo ano do ensino médio, ela passou para o turno da noite para procurar trabalho e ajudar a mãe.

Depois da noite de Cinderela, a adolescente pretende tirar a carteira de trabalho e entrar no programa Jovem Aprendiz. Caminho trilhado por Emmelyn. Há pouco mais de um mês, ela foi contratada por R$ 500 como auxiliar administrativo, ajuda bem-vinda para manter a si e a avó, desde que saiu da casa da mãe, grávida do sexto filho.

Emmelyn tem outros cinco irmãos menores, filhos do pai, que ela diz ter se distanciado da família após se envolver com o tráfico.

BAILE EXTEMPORÂNEO

O baile de debutante extemporâneo é um refresco em uma rotina de sobressaltos, marcada por operações policiais na atual queda de braço entre poder público e traficantes/usuários no point de venda e uso de crack em São Paulo há décadas.

“Depois das últimas batidas, o Moinho está mais calmo”, reconhece Emmelyn. Ela, no entanto, guarda da memória cenas de truculência policial, como a vivida quando tinha 11 anos.

“A polícia entrou na favela tacando bomba. Eu fui pra cima de um policial que estava quase batendo na minha mãe grávida da minha irmã, que hoje está com quatro anos”, relata.

A debutante assiste ainda ao drama de pessoas próximas imersas na ciranda degradante do vício na droga que dá nome à vizinhança. “Tenho um tio e muitos amigos que usam crack. É um mundo sem futuro.”

O passado também deixa suas marcas, em recordações como o incêndio que destruiu a favela em 2015. “Metade do Moinho pegou fogo e nosso barraco junto. Perdemos tudo”, lamenta Nathalia. Entre as perdas, o melhor presente de todos: uma bicicleta rosa que herdara dois dias antes de uma amiga, que ganhara uma nova.

O relato triste é interrompido para que Nathalia tire uma foto com Larissa Manoela. Na sequência, o papo é de menina. Alguns dos dramas adolescentes da garota de classe média retratada em “Meus 15 anos”, como a expectativa do primeiro beijo e ser ou não ser popular na escola, encontraram eco entre as “Cinderelas” do centro.

“Meu primeiro beijo também foi como no filme. Beijou e tchau. Era um ficante”, conta Nathalia, atualmente sem namorado para escalar pra o papel de “príncipe” para a valsa do grande dia.

LOOK DE PRINCESA

Assim como a debutante da ficção, ela também estranhou de início o look de princesa exigido para a ocasião. “Não gosto de rosa. É coisa de menininha”, diz.

Ela encarou um longo na cor preferida das princesinhas de plantão, mesmo fazendo a linha esportista. “É uma fantasia”, resume ela, que sonha em fazer faculdade de educação física para virar professora de muay thai, arte marcial tailandesa.

Já Emmelyn penou para se equilibrar no salto alto. Identifica-se com a protagonista do filme que só passa a curtir a festa quando coloca um tênis e tira metade da roupa de gala. “Muita menina tem esse sonho de debutante. Acho legal, mas não era o meu.” Apesar do discurso, ela se rendeu: “Agora estou curtindo o vestido, a maquiagem, o anel”.

A festa de gala foi bancada em parte pela Paris Filme, distribuidora de “Meus 15 Anos” e por outros parceiros e voluntários da Novos Sonhos, ONG nascida dentro da Cristolândia, centro de acolhimento ligado à Igreja Batista que atua na Cracolândia.

“Muita gente se mobilizou. A festa acontece para espantar o baixo-astral e trazer alegria para as meninas neste momento difícil na cracolândia. E também renova as forças dos profissionais que atuam para ajudar estas famílias”, afirma Joana Machado, fundadora da ONG.

No pacote de surpresas da festa, estava um vídeo mostrando desde o anúncio da festa, as provas de vestido e as aulas de dança.

PRÍNCIPE X SAPO

Assim como no longa, as 11 debutantes também se debateram com a dúvida de quem escolher para bailar no salão do Espaço Climbers, na Vila Leopoldina. “Não quis convidar meu ex-namorado. A gente terminou ontem. Gosto dele, mas é muito feio”, decreta Emmelyn. Ela escalou um tio para a função.

A maratona do dia de princesa começou às 9h no salão. Às 17h30, elas chegaram ao local da festa. Era hora de subir no salto e dos últimos retoques. Fizeram ginástica para se acomodarem no camarim com suas saias de tule volumosas. Não esconderam a ansiedade.

Era hora da festa. Entraram no salão com balões em formato de coração e ao som de “I Never Told You”, de Colbie Caillat. “Amanhã, a carruagem pode virar abóbora”, brincou Taís Tainara de Jesus, a mais falante do grupo. Elas sabiam que o sonho tinha hora para acabar: 23h30.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/