Entenda a polêmica que está balançando o mundo do Bitcoin

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Proposta quer aumentar limite de transferências por segundo do Bitcoin. (Foto: Leszek Soltys/Freeimages.com)

Se você tem alguma dúvida sobre segurança da informação (antivírus, invasões, cibercrime, roubo de dados etc.) vá até o fim da reportagem e utilize o espaço de comentários ou envie um e-mail para [email protected]. A coluna responde perguntas deixadas por leitores no pacotão, às quintas-feiras.

Após altas constantes na valorização em relação ao dólar, o Bitcoin voltou a sofrer com flutuações de preço desde que um “fork” do Bitcoin, chamado de SegWit2x, foi cancelado. Mas o que é um “fork”, por que o SegWit2x exige isso e qual a relevância desses movimentos para o Bitcoin?

O ponto central da polêmica é a capacidade máxima do Bitcoin de processar transações, ou seja, transferências de moedas entre seus utilizadores. O Bitcoin hoje opera quase sempre em seu limite, o que atrasa e encarece o as transferências. Usuários, mineradores, investidores e empresas envolvidas na economia do Bitcoin não chegam a um consenso sobre como resolver esse problema — e nem mesmo se o problema deve ser resolvido.

O SegWit2x é (ou seria) a primeira etapa no aumento do tamanho do bloco do Bitcoin. Blocos do Bitcoin contêm todas as transações feitas com a criptomoeda. Um bloco é gerado, em média, a cada dez minutos. O tamanho máximo do bloco é de um Megabyte (1 MB), e é isso que impõe um limite ao número de transferências.

Pela regra do SegWit2x, o tamanho do bloco seria duplicado e passaria a ser de 2 Megabytes (MB). É daí que vem o “2x”. A parte do “SegWit” se refere ao Segregated Witness, outra mudança técnica ao Bitcoin para aumentar o número máximo de transações por bloco. O SegWit já está valendo, mas, em vez de expandir os blocos, o SegWit diminuiu o tamanho que cada transferência de Bitcoin ocupa, aumentando a eficiência.

A adoção do SegWit e a posterior duplicação do tamanho do bloco do Bitcoin ambas fazem parte do “Acordo de Nova York”, um documento de maio deste ano. A duas medidas não têm nenhuma relação técnica entre si, apenas miram no mesmo problema e constam do mesmo acordo. É por isso que a duplicação do tamanho do bloco acabou com o nome pouco intuitivo de “SegWit2x”.

Enquanto o SegWit foi adotado por uma mudança no software existente, a duplicação do tamanho do bloco seria efetivada na rede por meio de um “hard fork”: uma “divisão” de toda a cadeia do Bitcoin. Ou seja, passaria a existir um “Novo Bitcoin” (chamado de BTC1) e um “Bitcoin Clássico”. Com a adoção do novo Bitcoin pela maioria das partes interessadas, o “Bitcoin Clássico” não teria qualquer relevância e desapareceria, ficando somente o Novo Bitcoin, de maior capacidade.

Como o Bitcoin não tem uma “autoridade central”, há chances de que o Bitcoin atual continuaria existindo. Isso resultaria em incertezas nesse processo, incluindo a possibilidade de fraudes em que uma transação no “Bitcoin Clássico” poderia ser duplicada sem autorização das partes no “Novo Bitcoin” e vice-versa. Por outro lado, se essa proteção for criada, quem hoje tem Bitcoins poderia vender seus Bitcoins duas vezes (pelo processo “novo” e depois pelo “velho”), o que aumenta a especulação e as chances de a moeda atual não desaparecer. Pior ainda: a moeda nova é que poderia sumir ou desvalorizar, prejudicando a reputação do Bitcoin.

Há ainda quem seja contra a mudança no tamanho do bloco por questões financeiras e técnicas.

Leilão de transferências

O tamanho atual do bloco do Bitcoin, mesmo após a adoção do SegWit, não dá conta de toda a demanda de transações da rede. Isso significa que há uma fila de transferências. Quem quiser furar a fila precisa pagar uma taxa de “incentivo” para os mineradores incluírem sua transferência em detrimento de outras.

Com as recentes movimentações e flutuações do Bitcoin, a taxa média por transação ultrapassou os US$ 10 (cerca de R$ 33), mas valores por volta de US$ 4 (cerca de R$ 12) não são incomuns. Nessa realidade, transferências de Bitcoins começam a ficar mais caras (ou, no mínimo, terem custo comparável) a dos bancos tradicionais.

Como todas as transferências ocupam mais ou menos o mesmo espaço no bloco, transferências de valores pequenos ficam praticamente inviáveis.

Quem ganha com isso?

A taxa paga nas transferências é incluída nos ganhos dos mineradores que resolvem o bloco. Dobrar a capacidade do Bitcoin no momento pode muito bem decretar o fim dessas taxas e, portanto, do faturamento obtido com elas.

Com mais de 250 mil transações por dia, US$ 4 por transação adicionam pelo menos US$ 1 milhão ao bolso dos mineradores todos os dias – uma quantia significativa. Mesmo assim, a maioria dos mineradores se diz favorável ao SegWit2x, já que um Bitcoin “limitado” pode não ter futuro.

Limitado, Bitcoin ficaria fora do comércio cotidiano

O limite de transferências representa um limite também para o crescimento do Bitcoin em termos práticos. Não é possível fazer compras diárias ou pagar um sanduíche com Bitcoin se o custo da transação supera o do produto ou serviço adquirido.

Alguns defensores do Bitcoin argumentam a moeda é hoje uma “reserva de valor”, ou seja, que o Bitcoin seria o “ouro” das criptomoedas: é precioso, é usado nas reservas de grandes valores, mas não é utilizado no comércio cotidiano.

Nesse raciocínio, o Bitcoin não precisa mudar, e a utilidade prática das moedas digitais pode ficar para as “moedas alternativas”, como Ethereum e Monero. Os atuais mineradores de Bitcoin não se envolvem com essas moedas por causa das diferenças nos requisitos de processamento: a maior parte do hardware que atualmente minera o Bitcoin é incompatível com essas moedas.

A diferença é que criptomoedas não são um metal precioso e não existe nenhuma razão técnica para que uma moeda não possa ser reserva de valor e ainda assim ser útil no cotidiano. Com o tempo, uma moeda mais popular, que seja de fato usada no mundo real, pode ganhar mais valor. Isso prejudicaria a posição do Bitcoin como reserva de valor, pois não haveria nada para segurar o valor do Bitcoin, que cresceu impulsionado pela promessa de que seria a “moeda do futuro”.

Com o Bitcoin valendo menos, todo o investimento dos mineradores e poupadores sofreria. Mas não é possível ter certeza sobre o que vai ou não acontecer, e pode ser que o Bitcoin retenha seu valor mesmo sem mudar nada. É essa dúvida que está balançando o mercado.

Quem crê na possibilidade de queda do Bitcoin por falta de uso real é quem mais está interessado em aumentar o tamanho do bloco e teme um futuro estagnado. Quem não crê nisso, seja porque acredita na teoria do “Bitcoin como reserva de valor” ou porque tem medo dos riscos inerentes a qualquer mudança, quer que tudo fique como está.

Alternativas já existem

Quem até agora ganhou com tudo isso foi o Bitcoin Cash. Outro “fork” criado para resolver o problema do limite de capacidade, a moeda usa um bloco de 8 MB (um “SegWit8X”, por assim dizer) e está operando bem abaixo da capacidade.

No dia 8 de novembro, o Bitcoin Cash valia cerca de US$ 600. Hoje, a moeda está cotada em US$ 1,3 mil (o Bitcoin caiu de US$ 7,3 mil para US$ 6,5 mil no mesmo período). Projetado desde o início para coexistir com o Bitcoin, o Bitcoin Cash não sofre com os problemas inerentes à existência de duas cadeias e cada vez mais se estabelece com um “Bitcoin pronto para o futuro”.

Como o processo de mineração do Bitcoin Cash é igual ao do Bitcoin, alguns mineradores favoráveis ao SegWit2x já apoiam a rede do Bitcoin Cash quando as valorizações da moeda a tornam mais lucrativa para ser minerada que o Bitcoin tradicional. Se o Bitcoin Cash continuar subindo, mais mineradores podem pular para o barco da moeda — o que complica ainda mais o futuro do Bitcoin, já que o envolvimento de mineradores é hoje o principal termômetro para medir o interesse em uma criptomoeda.

Fonte: http://g1.globo.com/tecnologia/blog/seguranca-digital/post/entenda-polemica-que-esta-balancando-o-mundo-do-bitcoin.html