‘UPPs vieram para anestesiar a população e permitir que a corrupção acontecesse por baixo dos panos’, diz ex-comandante da PM

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Rio de Janeiro viveu nova escalada de violência após policiais militares entrarem em confronto com traficantes

Emilly, 3 anos, e Jeremias, 13 anos, são as mais recentes vítimas da violência no Rio. Ela foi morta a tiros de fuzil durante um assalto, ele acabou atingido por uma bala perdida ao voltar do futebol na comunidade da Maré, zona norte. A cidade assistiu a uma nova escalada de violência na terça-feira, quando confrontos entre a Polícia Militar e criminosos no Complexo da Maré levaram ao fechamento das três principais vias do Rio.

Ex-comandante das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e ex-chefe do Estado Maior da Polícia Militar, o antropólogo Robson Rodrigues, hoje na reserva da PM, afirma que as ações sugerem uma polícia desgovernada, agindo sem coordenação e “sem norte”, e produzindo resultados “catastróficos” para a sociedade.

“Essas ações só aumentam a temperatura, a sensação de medo, e a percepção de que a situação realmente fugiu ao controle do Estado. E vemos o carioca cada vez mais deprimido pessimista, sem conseguir enxergar uma luz no fim do túnel”, considera Rodrigues, pesquisador do Laboratório de Análise de Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Na terça, o governador Luiz Fernando Pezão lamentou as mortes de Emilly e Jeremias, afirmando estar “indignado como toda a população”. Pezão afirmou que a Polícia Militar está prendendo “cada vez mais criminosos” e enfrentando “bandidos cada vez mais fortemente armados e insanos”.

Em entrevista à BBC Brasil, Rodrigues diz que o governo e as forças de segurança do Estado não têm mais credibilidade da população e relaciona o descrédito à teia de corrupção no governo de Sérgio Cabral, antecessor de Pezão.

“As disputas (em territórios conflagrados) têm aumentado tanto em virtude da fragilidade da segurança pública quanto da crise política e do vácuo moral que o governo do Estado enfrenta após as denúncias”, considera ele, que vê no lucrativo esquema comandado por Cabral a prova de que não havia vontade política para modernizar a polícia nem dar sustentabilidade às UPPs. “O interesse era ter uma política que pudesse contagiar a população e deixá-la anestesiada para que outras coisas pudessem acontecer por baixo dos panos.”

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC Brasil –O Rio de Janeiro parou ontem com a operação no Complexo da Maré e a morte de duas crianças. Que diagnóstico o senhor faz da situação atual?

Robson Rodrigues – Já passou da hora de termos uma resposta racional, organizada, mas estamos ouvindo muita retórica e vendo ações que não parecem ter uma coordenação ou planejamento racional.

Essas ações não têm um norte, não têm uma direção. Não há relação custo-benefício proveitoso para nenhum dos atores, nem para polícia nem para a sociedade.

Robson Rodrigues
Image captionO antropólogo Robson Rodrigues, hoje na reserva da PM, critica atuação das Unidades de Polícia Pacificadora

Elas só aumentam a temperatura, a sensação de medo, e a percepção de que a situação realmente fugiu ao controle do estado. E vemos o carioca cada vez mais deprimido pessimista, sem conseguir enxergar uma luz no fim do túnel.

Vem uma frustração muito grande porque até um tempo atrás parecia que havia um controle relativo das coisas, com tendência de quedas dos indicadores da criminalidade. Mas os números de homicídios estão novamente se aproximando da casa dos 6 mil (em 2017, foram 5.332 no Estado, contra 4.081 em 2012). O último ano que tivemos mais de 6 mil homicídios foi 2007. Isso faz a gente comparar com a situação pré-UPPs (implantadas a partir de 2008).

BBC Brasil – O senhor disse que as ações de hoje não têm um norte. O que está faltando para nortear essas ações?

Rodrigues – Acho que quem deveria estar coordenando essas ações era o Estado. As polícias são subordinadas ao governador, ao secretário de segurança. Se as polícias erram, mesmo que seja na tentativa de acertar, é por falta de liderança. Por falta de um comando. Me parece que elas estão atuando de uma forma autônoma. Falta uma coordenação racional inteligente que possa avaliar e medir os riscos que uma ação assim pode causar, riscos que estão resultando em mortes, de policiais inclusive.

Algo tem que ser feito, mas a que preço? As ações precisam ser ponderadas. Mesmo em um momento de tensão, não podemos abrir para que todos resolvam a situação a seu modo. Um plano tem que ser articulado, as instituições têm que levar em consideração todos os impactos e prováveis riscos. Era bem previsível que uma ação em uma favela como a Maré, área de alta complexidade, em um horário como aquele (no meio da tarde da primeira semana de volta às aulas) teria um resultado como o que tivemos.

Moradores da Cidade de Deus
Image captionMoradores da Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, também sofreram com confrontos entre criminosos e policiais | Foto: AFP/Getty Images

Será que vale a pena? Quando há mortes, quando há esse impacto todo, o aumento do pavor, o desgaste ainda maior das forças de segurança, eu acho que não. Qualquer resultado que tem perda de vidas não valeu a pena. Perdemos. Perde a segurança, perde a sociedade, perdemos todos. E isso não tem impacto sobre as estruturas do crime mais organizado. Está faltando planejamento para guiar essas ações, ponderar esses resultados e minimizar efeitos como esses.

BBC Brasil – Mas o senhor acha que a polícia está agindo de forma autônoma, tomando decisões por conta própria, sem liderança?

Rodrigues – Não sei. Acho que se não for isso, é pior ainda. Porque os resultados não têm reduzido os números de ocorrência violenta. Pelo contrário, estamos produzindo mais violência, mais impactos. Se isso estiver sendo feito com uma coordenação, indica que a situação é ainda mais vulnerável, porque estão seguindo orientações equivocadas. Você fazer uma operação dessas com todos esses efeitos, com riscos, com morte, com risco para todo mundo, vale a pena?

Em um momento de crise como o que estamos enfrentando, o mais sensato, racional, inteligente, seria você dosar toda a utilização de seus recursos, ponderar se vale a pena aplicar. Operações custam caro, fora os custos sociais, o número vidas que se perde. Está faltando um plano mais racional e coordenado que possa tirar resultados mais positivos do que os que estamos colhendo, infelizmente.

BBC Brasil –A policia está contribuindo para aumentar a violência?

Rodrigues – Pelos resultados dessas operações, sim. Estamos produzindo mais problemas. No meio desse incêndio, você vai espalhar a brasa para tudo quanto é lado, com um bombeiro que tem pouca água para apagar o fogo?

O secretário de Segurança Pública afirmou que a polícia entrou na Maré por causa de uma denúncia de que policiais na Nova Holanda tinham sido sequestrados. A denúncia não procedia e a operação acabou matando um menino de 13 anos. A decisão de entrar foi precipitada?

O momento é tenso e o nível de decisão não deveria caber só à polícia nesse momento. Se tivéssemos uma coordenação, quem deveria estar orientando essas operações seriam as informações colhidas na investigação. Deveria ter uma troca de informação rápida pra checar se a denúncia procedia ou não. Vai checar in loco uma denúncia que não existiu? O risco é maior, logicamente.

Nesse sentido, tecnicamente, me parece que houve muitas falhas. Ainda não se explicou o verdadeiro motivo (da incursão). Mas o resultado foi catastrófico. Com impactos em todos os setores, todos os segmentos. Ninguém sai ganhando. Somente os marginais, que se aproveitam dessa situação caótica. Esse crime relativamente organizado parece mais organizado diante da desorganização do estado.

BBC Brasil – Temos visto uma retomada das disputas entre facções pelo controle de territórios, como aconteceu na Rocinha. Em que medida o senhor relaciona esse aumento de disputas à queda das UPPs?

Rodrigues – Quando a política de pacificação começou a atuar para recuperar esses territórios, gerar oportunidades e tentar entrar com outras políticas públicas para desestabilizar a permanência desses criminosos, isso surtiu efeito. Muitos se viram intranquilos, tanto é que preferiram fugir desses locais. Mas, logicamente, deixando aberta a possibilidade de retorno.

E assim que o governo do Estado começa a mostrar fraqueza, isso repercute rapidamente nas políticas públicas. Isso é percebido pelos traficantes, que tinham recuado mas nem tanto, sempre olhando aquele capital que tinham deixado para trás. A fragilidade das forças do Estado cria uma oportunidade de retorno.

A facção que mais perdeu território e capital com a politica de pacificação (o Comando Vermelho) voltou violentamente para tentar recuperá-lo. Partiu para cima não só de facções inimigas como também de milícias.

Quando há um sinal de fragilidade, de vácuo de poder, principalmente nesses espaços controlados de forma violenta, é claro que vai haver disputa. Na ponta da linha vamos sentir esses efeitos mais violentos. É o que tem acontecido.

Contribuem também a crise política e o vácuo moral que o governo do Estado enfrenta após as denúncias da Lava Jato. As facções voltaram muito mais fortalecidas, e aprenderam como deveriam agir porque tomaram um baque forte com a política de pacificação.

BBC Brasil – O senhor acha que a forma como a política de pacificação foi implementada tem a ver com o que estamos vendo agora?

Rodrigues – Não houve sustentabilidade. O problema foram os objetivos e as intenções que estavam por trás da política de pacificação. Não falo dos policiais vocacionados. A maior parte acreditava no processo, mas essa credibilidade foi se perdendo ao longo do processo.

Mas havia intenções maquiadas por trás. Isso a gente verifica agora, com os avanços da Lava Jato. Aí você entende por que não se quis dar uma sustentabilidade ao processo.

BBC Brasil – Quais eram essas intenções maquiadas?

Rodrigues – Ora, hoje ficou claro que havia toda uma empresa criminosa no governo do Estado (durante o mandato do governador Sérgio Cabral, que já foi condenado a 87 anos de prisão e se tornou réu 21 vezes). O crime mais organizado estava lá. Tudo para poder obter lucros através das construções de empreiteiras. Essa coisa vergonhosa que estamos vendo põe em descrédito todas as ações.

A própria polícia acaba perdendo a credibilidade por causa dessas práticas criminosas e da corrupção política nos altos níveis do governo do Estado.

Você vê que por trás de toda a política de pacificação, por mais que alguns policiais tivessem boas intenções de fazer mudanças benéficas, as pessoas mais poderosas estavam com intenção de auferir lucros. E nisso se assemelham às práticas criminosas dessas organizações de que estamos falando aqui.

Não houve um plano de sustentação da pacificação, de modernização das polícias, de transformar aquilo em um produto benéfico para a sociedade, porque as pessoas estavam preocupadas com os próprios bolsos. A Lava Jato e as investigações de uma forma geral estão mostrando isso. São os fatos. Quando você vê que os três últimos governadores do Rio foram presos recentemente e o ex-governador teve todas essas condenações, de forma tão contundente. Não pode haver dúvida.

Aí gente confirma a nossa tese de que não havia interesse em dar sustentabilidade à pacificação através da modernização das polícias. O interesse era manter uma política que desse certo, que pudesse contagiar a população e deixá-la anestesiada, para que outras coisas pudessem acontecer por baixo dos panos. Isso foi catastrófico para uma política que em determinado momento foi um exemplo para vários países.

Hoje vai ser muito difícil recuperar essa legitimidade que foi jogada fora. É preciso reconquistar confiança, mas a crise de credibilidade na classe política vai afetar qualquer plano de segurança pública no Rio por muito tempo, por mais técnico que seja. Precisamos encarar esse problema.

BBC Brasil – De que maneira o senhor acha que a corrupção praticada na época do governo Cabral afeta a imagem das polícias hoje?

Rodrigues – A confiança e a credibilidade das forças de segurança do governo do Estado do Rio e do governo estão lá embaixo. A população não acredita mais, e quando você perde credibilidade, é um fracasso total. Você tem aí um problema sério, porque o maior capital dos Estados, dos governos e de suas polícias e a credibilidade e a legitimidade que possa obter de suas ações.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-42982286